O ganhador

Terça-feira, 3 de abril de 2018, Diógenes (nome fictício) vai a uma das lotéricas do centro de Viamão pagar uma fatura de R$ 153,00. A simpática atendente lhe suplica para comprar um bolão de Mega-Sena. Diógenes declina, não tem costume de jogar. A moça insiste, ele acha caro, pergunta quanto é o bilhete unitário, “R$ 3,50, ela reponde”. Ele pensa alguns segundos e diz a fatídica frase que mudaria tudo em sua vida: “Me dá dois”.

Esta é a estória de Diógenes, o ganhador da Mega-Sena de Viamão, concurso 2.028 que sorteou na quarta-feira dia 4 de abril em Seara/SC R$ 10.251.126,97 para cada uma das 4 apostas ganhadoras. Além de Viamão, foram 2 ganhadores em São Paulo e outro em Piracicaba. Os números sorteados foram: 07-11-24-36-42-58.

Eu estava de férias quando do sorteio e, como todo viamonense, fiquei curioso. Informações desencontradas começaram a pipocar. Foi fulano, foi sicrano, era só disse-que-disse. Pensei cá comigo: vou dar uma investigada, tô “de valde” mesmo…

Na quinta-feira passei na Caixa Econômica Federal, paguei uma conta, fiz hora e conversei com algumas pessoas. A sensação (que depois se confirmaria correta) era que o ganhador ainda não tinha aparecido. Repeti o roteiro na sexta-feira dia 6 e uma entusiasmada moça confidenciou: “Um homem apareceu assim que a agência abriu, parece que é o ganhador”. Fiquei alerta. Grande parte das investigações policiais se dá por interceptação telefônica (grampo) e imagens de câmeras. Grampo sem autorização judicial é crime, mas olhar imagens de câmeras, não. Saí do banco, olhei no entorno e vi duas câmeras em pontos comerciais próximos.

Cheguei amistosamente no primeiro e “apliquei” que havia estacionado meu carro por ali no dia anterior e alguém tinha batido de leve no meu para-choque e fugido, perguntei se não poderia ver as imagens de ontem para, quem sabe, identificar o carro e a placa. “Tudo bem”, disse o gentil funcionário. “Que horas foi?”, perguntou ele, no que respondi: “entre 9:50 e 10:05 h, acho”, ele me olhou espantado com a minha precisão de horário (definitivamente não sou um bom investigador).

Ele colocou as imagens e disse: “Pode olhar, eu já volto”. Sorri agradecido e comecei a ver a imagens que eram bastante nítidas. Nem sei bem o que procurava, mas fiquei vidrado na tela. Às 10:01 h aconteceu a mágica. Vejo um senhor bem apessoado se aproximar da porta da agência (até então ninguém havia chamado a minha atenção). Dou um pause, olho de novo, dou um zoom e olho bem e penso: “Bingo! Eu conheço este homem”. Feliz da vida com o meu achado, penso em como abordá-lo. Tarefa difícil, pode não ser ele.

Na segunda-feira dia 9 sabedor na rotina de Diógenes, forcei um encontro fortuito e casual na rua com ele, sozinhos, frente-a-frente pareceu tenso a meu ver e incrivelmente surpreso quando de supetão eu disse: “Preciso contar a sua estória”, disse baixinho, ele me olhou severamente e negou inicialmente, silenciei e olhei firmemente e ele consentiu e disse: “Como soubesses?”. Sorri como sorriem os vitoriosos e lhe fiz um resumo da minha busca. Ele sorriu de volta, apertou meu ombro, negaceou com a cabeça e novamente sorrindo, sussurrou: “Incrível, incrível…”.

Prometi-lhe todo o meu sigilo, não o exporia, e marcamos um café no dia seguinte em Porto Alegre. Marquei em uma discreta cafeteria que conheço no Centro Histórico.

No dia seguinte fiquei com receio de Diógenes não aparecer, mas no horário marcado lá estava ele. Excepcionalmente bem humorado (e ele não é um homem caracterizado como bem humorado).

Nos conhecemos há anos, mas não temos propriamente amizade, nos cumprimentamos fraternamente desde sempre. Expliquei que meu interesse era puramente jornalístico e ele disse que disso não tinha dúvidas e que apesar de não ser um homem de letras, me acompanhava no Correio Rural e gostava de minhas crônicas. Perguntamos mutuamente por nossas famílias, pedidos dois cafés e sozinhos em um discreto canto da cafeteria, ele me contou o que está escrito lá em cima no início da crônica e fez a primeira bombástica revelação: nem a esposa, nem os filhos sabiam que ele fora o ganhador do prêmio. Fiquei surpreso, mas mais viria.

Contou-me um pouco de sua vida, já bastante estável a esta altura do campeonato e sua surpresa ao ser sorteado. Em um primeiro momento disse que ouviu no rádio que uma aposta de Viamão fora vencedora e que sozinho na cozinha conferiu o prêmio. Uma só vez. Sentou-se, botou a mão na cabeça diz ter dado um soco no ar e gargalhado alto. Imediatamente começou a fazer planos. Lembrou que não tinha dívidas e nem desejo de embarcar em um cruzeiro para essas viagens de rico. A comida que comprava já era boa e não sentiu vontade de comer nada diferente. Vieram as primeiras angústias com sua segurança na insegura Viamão. O dinheiro parecia ter virado um problema. Na quinta-feira, um dia depois do sorteio, foi a Porto Alegre a abriu uma conta em um banco estrangeiro, não se sentiu a vontade para deixar o dinheiro em Viamão, poderiam comentar e aí…

Decidiu por hora não contar para ninguém que aquele bilhete dobrado na carteira valia mais de 10 milhões. No ônibus de volta, alguém tinha deixado um jornal na poltrona. Com a cabeça a mil, começou a folheá-lo. Uma matéria sobre Bill Gates lhe trouxe paz e serenidade. Já sabia o que fazer com o dinheiro.

Lhe interrompi: “E o dinheiro, o que fará com o dinheiro?”.

E ele calmamente: “Não há dinheiro. Doei tudo.”.

O QUÊ??? Pergunto quase caindo da cadeira. Sim, respondeu ele, novamente calmo, em uma estranha paz. “Doei até os centavos”.

Abriu o coração, falou de como angustiado e sofrido tinham sido os últimos dias e que ao ler aquele jornal enviado por Deus, segundo ele, estava ali a resposta que procurava: Bill Gates, dono de uma fortuna avaliada em atuais U$ 97 bi, já havia doado desde 2008 mais de 50 bilhões de dólares para pesquisa em saúde, bolsas e todo tipo de filantropia. Ele disse que já se sentia rico e que não precisava de nenhum real daquele prêmio. Fizera uma rápida pesquisa das instituições que ele acreditava que poderiam fazer bom uso do dinheiro, ligou pediu as contas e fez depósitos anônimos. Nunca se sentiu tão bem na vida.

Finalizou a estória a abriu um largo sorriso e olhando para mim chorou. Aquele choro bom, no que também não contive as lágrimas. Era o primeiro ex-milionário feliz que conhecia.

Na saída me pediu para pagar o café. Estava sem dinheiro. O resto tudo ele já tinha.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *