Não sabemos dialogar com a natureza

(Amadeu Garrido de Paula –  Advogado)

Ao governante, é muito simples dizer que a natureza indomável, uma chuva torrencial e atípica provocou tragédias humanas deploráveis.

Evidentemente, ele não irá admitir que foi omisso e, para afastar sua responsabilidade, também não falará dos erros de seus antecessores.

Decretará emergência, pedirá socorro, derramará lágrimas de crocodilo que descerão pelas enxurradas barrentas.

Há muitos motivos, mas pensemos numa questão de método. Como deve o homem conviver com natureza?

Ambos são partes recíprocas de um imenso organismo que devem interagir criativamente. No entanto, uns pensam que o homem deve agredir a natureza e outros que a devem proteger, deixá-la intocada e livre de qualquer hipótese de intervenção. Ambos, em nosso modo de ver, estão equivocados.

A natureza dá vida ao homem e o homem dá vida à natureza. Esta não é algo perfeito e acabado. Deus nos deu a tarefa, como seres dotados de inteligência, de aperfeiçoá-la. Os desastres naturais ocorreram desde que o mundo é mundo, com a ressalva de que se agravaram nos últimos tempos, quando a agredimos em certos pontos, que se irradiam a todos os demais.

Nada justifica que um córrego não conduza apenas suas águas limpas, mas os despojos dos esgotos e o lixo que o injuriam. É perfeitamente possível morar – e aprazível – à beira de um riozinho que corta nosso espaço urbano, mas devidamente respeitadas e mantidas suas águas puras.

Metade da população do Brasil não tem redes de esgotos, que acrescentam nossas excrescências aos rios.

Um dia, em que chuvas se precipitam em níveis maiores do que os habituais, eles nos dão suas respostas.

Como não há canalizações, barragens modernas, taludes gramados em suas margens, piscinões suficientes, vem a tragédia humana: transbordam, invadem as casas, os prejuízos são inevitáveis e pobres criaturas sobreviventes se abrigam onde podem, amarguradas pelas perdas materiais de toda uma vida e adoentadas pela insalubridade.

Em suma, devemos dialogar construtivamente com a natureza. Intervir em sua essência, porém, em termos tais que a natureza se aperfeiçoe e afaste suas hostilidades.

Nossa conduta – agressiva ou omissiva – determina a ocorrência das tristes tragédias de nossos irmãos chafurdados na lama e no desespero. E por “nossa”  entendam o desprezo dos políticos por seus governados, numa “democracia representativa”, que exige ética, engenho e arte, três plantas exóticas na terra em que vivemos.

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