Em poucos dias fomos da doença crônica ao coma

                                                                          (Amadeu Garrido de Paula – Advogado)

Não se modifica um país apelando-se à queda súbita de um raio em céu azul.

O processo de evolução humana é paulatino e todos os ingredientes do novo são partes modificadas do velho, que não se descarta simplesmente.

Karl Marx, em um de seus acertos, entre erronias que os marxistas não admitem, dizia que os sistemas econômicos caminhavam sob uma linha de escravidão, feudalismo, capitalismo e socialismo; nenhum desses estágios históricos poderia ser atingido como se nada houvesse ocorrido anteriormente e que todo o anterior fosse de coisas sem valia.

Esse equívoco do divórcio entre as fases históricas e da autonomia do novo marcaram nossos momentos mais recentes do Brasil. Bastaria uma eleição e a introdução de uma política nova. Esta, sem consideração dos elementos do passado, que devem ser transformados, mas não simplesmente ignorados, é utopia.

Ninguém cria o “nunca antes na história deste País”. Nem Lula nem Bolsonaro. Os valores passados devem ser criticados, sopesados, avaliados, levados em conta, mantidos alguns que não se desgastaram, mas para criar-se nova realidade axiológica entre os costumes populares e os destinos da sociedade, da política, da economia e a finalidade última – a busca da felicidade de todos para construção de uma vida coletiva razoavelmente favorável aos humanos.

O resultado do idealismo do século XVIII está aí. Um governo submetido ao torvelinho dos desentendimentos, das ombradas internas, da falta da agulha que aponta para o norte, da absoluta incerteza quanto ao que deve fazer hoje e amanhã num dos maiores países do mundo. À falta até mesmo de imaginação criadora, enfurnados num cói de brigões e levianos, os inventores da roda política se lesionaram gravemente e levaram o povo da moléstia grave ao coma.

Não se propõe mudança de governo em tão curto período, mas as necessárias, racionais e prudentes medidas que seriam a resposta correta ao clamor das ruas. Nenhuma classe social é responsável pelo que ocorreu. Ao contrário, somente o rumo consensual, a consciência cultural da imprescindibilidade das reformas – não de uma única – a superação do maquiavelismo tosco e a grandeza de homens justos, simples e pensadores, poderá nos resgatar da UTI e livrar um dos maiores povos do mundo de seu féretro gigantesco.

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