Em Brasília, o governo dos centauros

                                                                           (Amadeu Garrido de Paula – Advogado)

Dorso, cabeça e braços de homem; no mais, cavalo.

O ser  mais harmonioso da sociologia fantástica.

Biforme, em “As Metamorfoses” de Ovídio. Uma só criatura, o homogêneo no heterogêneo, criam piamente as lendas gregas. Estas perdem-se nas trevas dos tempos. Filhos de Apolo, derivação de divindades menores na mitologia védica. Os gregos, que desconheciam a equitação, quando viam um homem sobre um cavalo imaginavam uma criatura só. Desmontado o cavaleiro, morria a criatura, dissecada em suas partes. Os primeiros índios também vislumbravam centauros, nos quais depois de transformaram com rara habilidade.

Enfim, uma criatura inviável. O cavalo é menos longevo que o homem. Assim, parte do fantástico tinha três anos, enquanto um bebê chorão o conduzia.

Não poderia haver harmonia, se uma das partes estava vaticinada a viver menos que a outra.

Sob a conjectura de uma imagem deliberada, reina, em verdade, a confusão das ignorâncias. Está aí a tão necessária e propalada reforma da previdência, um rascunho ainda contraditório de quatro meses. Torçamos para que o centauro volte à sua natureza e o homem seja homem, o cavalo.

E daí a necessidade de congruência de inteligência mínima, fulcrada especialmente nas perspectivas especializadas e no balanço das experiências mundiais, para que, ainda neste ano, possamos ter o sistema previdenciário da razoabilidade e da duração estável. Compatível com nossas circunstâncias. Tratar melhor os necessitados é manter a estrutura crônica das necessidades. Populismo assistencialista, só admissível como emergência.

O ideal é paulatinamente deixarmos de ser um País de maioria necessitada. Por ora, considerada uma reforma trabalhista demencial, obra de um parlamentar desejoso de fama, a destruição dos sindicatos, a proposta de um capitalismo selvagem, nada de estruturante, entre dois grupos antípodas, cada qual guiando as rédeas e esfolando com as esporas, só nos é dado ver um centauro em meio a um cerrado.

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