A flor da montanha mais alta do mundo

(Amadeu Garrido de Paula – Advogado)

A flor encerra o mais cerrado mistério do mundo. Pode ser esclarecido, num sentido, ou no oposto. Jamais deixará de estar numa flor do ponto mais alto. Não será menos venerável se, como uma anfiesma australiana de duas cabeças, voltar-se, sob os ventos,  a uma ou outra direção.

Os romanos tomaram partido. Foustel de Coulanges empregou longas páginas de seus escritos para reverenciar os “manes”. Os costumes, que se costuram, entre grupos, povos, nações, até mesmo entre os que não tiveram a virtude de viver no território da lei. Hoje podemos formular certas interrogações sob o psiquismo dos romanos ao afagar seus mortos. É dizer, sobre seus verdadeiros motivos: recônditos, em comunhão onipresente com os espíritos dos antepassados.  Reflexões sobre os homens nus, obliteradas  as aparências platônicas, poderiam vislumbrar menor generosidade dos sobreviventes nesses diálogos imateriais e atemporais.

É a flor – refletida por suas filhas coloridas – que nos levam a sepultar nossos idos e, com eles, fazer entrar em efervescência nossos arrependimentos.   Bem arrumados, talvez com o mais vistoso costume e a mais atraente gravata, o longo mais entusiasmante e os colares mais belos e raros. Enclausurados na morada da eternidade. Em madeira de lei ou vulgar. Nenhum escultor do desconhecido descuida de sua arte sarcófaga. Pouco importa a matéria prima.

No cotidiano que segue predomina o esquecimento. Muitos, espiritualmente avançados, jamais deixam de visitar, florir, conservar e reverenciar a sepultura. A maioria, contudo, adota a sublimação. Talvez o medo da morte, que ressuma até mesmo do espectro de nossos mais amados. Não sei se Shakespeare tomasse outra decisão e somente um do casal abdicasse  da vida cruel,  se o outro lhe levaria a flor até o fim do espetáculo. Tenho fundadas dúvidas. Talvez o bardo também as tivesse, mas não abriria mão  do sentimento indispensável dos expectadores ao cair dos panos. Daí o corajoso pacto do amor. Palco de  jovens cósmicos.

Talvez por isso a possível suntuosidade no momento do enterro. As primeiras pás de terras e as primeiras pedras corrompem o propósito solene. As mais sentidas lágrimas escoam ao som dessa conspurcação inevitável. Os vermes – e há sempre o primeiro – nos roem implacavelmente e merecem o prêmio do bruxo do Cosme Velho. Afinal, asseguram a resistência da vida.

Até os melhores momentos são esquecidos. Não nos podem exigir que – transeuntes –  vivamos, a prazo certo, com alguém eterno. Mas a hipocrisia que não larga os humanos talvez represente o eterno. Sempre pretextamos. E o mistério nos oprime por toda a vida. Sabemos, nesse mundo das ciências físicas, que um só dos dois elementos do ser é corrompido e enterrado – ou cremado. O outro é o elétron, ao qual pouco importam as solenidades, ou nenhuma,  em apreço à nossa banda corrompida.

O elétron voltará a eclipar-se num pedaço de matéria. Talvez sim, ou não,  dirá a mecânica quântica. O certo é que a flor do mistério, por muito tempo ou para sempre, continuará a ornamentar o topo da montanha que podemos vislumbrar, ofuscados pelo véu da felicidade ou da ignorância que cobriu nossos olhos quando pela vez primeira os abrimos.

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